MAMAC: o que encontrei no museu de arte contemporânea de Nice

MAMAC: o que encontrei no museu de arte contemporânea de Nice

10/05/2019 0 Por Julia Dantas
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O MAMAC, museu de arte contemporânea de Nice, pode ser um excelente programa para incluir no dia em que você passear pela Velha Nice. Normalmente, o museu que mais chama a atenção dos turistas é o Museu Matisse. Porém, ele fica um pouco mais distante do centro velho da cidade, e chegar até lá sem carro pode consumir uma boa hora de deslocamento.

O MAMAC, por outro lado, fica no coração da cidade, entre a Promenade du Paillon, a Place Giuseppe Garibaldi e a Acrópolis. Foi por isso que, depois de um dia inteiro de andanças pela região sul da cidade, resolvi deixar o Museu Matisse para outro dia (com mais calma) e aproveitei o meu French Riviera Pass no MAMAC. E não me arrependi.

O que você encontra no MAMAC

Carro prensado de César exposto no MAMAC, em Nice
Um dos carros comprimidos de César Baldaccini expostos no MAMAC.

O acervo do MAMAC conta com mais de 1300 obras de 300 artistas, criadas a partir dos anos 1950. As coleções permanentes têm como foco os movimentos artísticos dos anos 1960 e 1970, com ênfase no “novo realismo” francês (nouveau réalisme), que dialoga com a Pop Art estadunidense. Assinado por Arman, Dufrêne, Hains, Yves Klein, Raysse, Restani, Spoerri, Tinguely e Villeglé, o manifesto de 1960 dos novos realistas está exposto logo na entrada da primeira sala. Ele diz: “novo realismo = novas abordagens perceptivas do real”.

O novo realismo se consolida em 1960 e ecoa as ideias do livro Mitologias, de Roland Barthes. A proposta dos artistas signatários é a recusa do abstrato e o uso da “natureza moderna” concreta. Natureza esta composta por fábricas, pela cidade, pelos produtos da mídia de massa e pelos frutos da ciência e da tecnologia. O uso de objetos cotidianos enseja a crítica à sociedade do consumo ao mesmo tempo em que discute os limites da arte.

As galerias também trazem obras de artistas ligados à Pop Art, ao Grupo 70 e ao Fluxus, além de arte minimalista e conceitual. É possível caminhar entre os carros conprimidos do escultor marselhês César Baldaccini e colagens extravagantes de Andy Warhol, entre outros expoentes da arte contemporânea.

Ben Vautier e o questionamento dos limites da arte no museu MAMAC, em Nice
O quarto de Ben Vautier.

Gostei bastante da obra de Ben Vautier, artista que vive até hoje em Nice. Ele mescla o uso de texto, imagens e objetos e cria instalações que questionam os limites da arte.

Arte contemporânea na Côte d’Azûr

No MAMAC, dois artistas ganham destaque: Yves Klein e Niki de Saint Phalle. Ambos possuem coleção permanente com uma galeria de retrospecto.

"Salto no vazio" de Yves Klein no MAMAC, em Nice
“Salto no vazio”, de Yves Klein.

Yves Klein é um artista nascido em Nice de grande importância no pós-guerra e um dos fundadores do novo realismo. Sua arte passa pela escultura, pintura, fotografia, música e performance. O tema do vazio é recorrente em sua obra, que apresenta este conceito como uma espécie de nirvana – muito por influência da filosofia zen com que teve contato quando fez judô.

As obras monocromáticas feitas em um tom de azul que ele mesmo criou e patenteou como “International Klein Blue” (IKB) são hipnotizantes.

O azul de Yves Klein no MAMAC, em Nice
O azul hipnotizante de Yves Klein.

O acervo de Niki de Saint Phalle é composto de 170 obras doadas pela própria artista em vida ao MAMAC. Francesa de nascença, Niki cresceu em Nova Iorque e morou em Nice durante o primeiro casamento. Sua ligação com a cidade está impressa em duas esculturas de sua autoria em locais públicos: o Miles Davis em frente ao Hotel Negresco e o monstro do Lago Ness na área externa do MAMAC.

Autodidata, Niki foi uma artista que usou diversos meios para concretizar sua obras. Em sua maioria, tratam-se de painéis e esculturas. Porém, a artista também fez da execução uma performance, como na série “tiros”, em que convidados atiravam em painéis em branco e estouravam recipientes carregando tintas que se espalhavam pelos objetos (vídeo abaixo). Alguns exemplares desta série fazem parte do acervo.

A série Nanas, com obras também expostas no MAMAC, tem como inspiração os diversos papéis da mulher na sociedade. As esculturas possuem formas amplas e em poses diversas – umas mais vivas, outras de aspecto mais obscuro – e foram feitas com materiais que vão do suave papel maché a ferros contorcidos.

Nanas de Niki deSaint Phalle no museu MAMAC, Nice
As “Nanas” de Niki de Saint Phalle.

É muito revigorante encontrar obras de mulheres com o devido destaque em um museu com a envergadura do MAMAC. Não foi à toa que a artista, feminista, doou centenas de suas obras para museus espalhados pela Europa ainda em vida. Com certeza ela sabia da importância da representação das mulheres em instituições de domínio masculino, como os grandes museus.

Terraço panorâmico

Terraço do MAMAC, Nice - vista panorâmica e obras a céu aberto
Terraço do MAMAC, Nice – vista panorâmica e obras a céu aberto.

Após o passeio pelas galerias, é possível desfrutar de uma bela vista de Nice nos terraços do MAMAC. Nos terraços você também encontra obras de arte, seja nas instalações feitas nas fachadas de vidro, seja nos jardins.

O museu fica entre a Promenade du Paillon, a Place Giuseppe Garibaldi e a Acrópolis. De quebra você ainda vai ter uma vista do coração moderno da cidade visto do alto. Aproveite para tirar belas fotos!

Serviço

O museu não abre às segundas-feiras e em alguns feriados: primeiro de janeiro, domingo de Páscoa, primeiro de maio e 25 de dezembro.

Horário de novembro a abril: das 11h às 18h

Horário de maio a outubro: das 10h às 18h

A entrada custa 10 euros para o dia, com acesso livre de estudantes (mediante apresentação de justificativa).

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Mapa e endereço do MAMAC

Endereço do MAMAC: Place Yves Klein, número 1. Acesso pelo tramway linha 1 ou ônibus linhas 3, 7, 9/10.

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