O que é a “canicule”, onda de calor que assola o verão na Europa

O que é a “canicule”, onda de calor que assola o verão na Europa

24/06/2019 0 Por Julia Dantas
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O brasileiro fica até aliviado quando descobre que a temperatura média de Paris durante o verão fica na casa dos 25 °C. Afinal, essa temperatura não chega nem perto do nosso verão tropical, que nos agracia com termômetros acima dos 30 °C quase que diariamente. Porém, o que as médias não dizem é que a Europa também recebe fortes ondas de calor que deixam a população em alerta durante dias. Este fenômeno tem se tornado cada vez mais comum e possui até nome próprio: é a chamada canicule.

O que é a canicule?

A canicule é uma forte onda de calor que dura de três a quinze dias e que se caracteriza pela baixa variação térmica. Ou seja, em períodos de canicule, não apenas faz muito calor durante o dia, mas as temperaturas também não caem o suficiente durante a noite. Com isso, o corpo não tem a oportunidade de se resfriar, o que aumenta a sensação de mal-estar. Elas ocorrem sempre no verão – nos meses de junho, julho e agosto.

As causas da canicule são variadas. No mediterrâneo, por exemplo, há canicules que são ocasionadas pelo vento sirocco, que vem do deserto do Saara. Esta traz de bônus a umidade, o que aumenta ainda mais a sensação térmica. Já em outras regiões, como em Paris ou Lyon, a situação é agravada pela poluição, que as transformam em “ilhas de calor” (aquelas que aprendemos nas aulas de geografia).

Praia do Prophète em Marselha
Durante a canicule, praia só no fim do dia! Foto da Praia do Prophète, em Marselha.

Cada região possui um marcador térmico para o que é considerada uma canicule. Isto porque cada região está mais ou menos aclimatada às altas temperaturas (tanto fisiologicamente como estruturalmente – na Europa, não é tão comum o uso de ar-condicionado!).

Em Paris, por exemplo, o sinal de canicule se dá quando se atingem as temperaturas de 31 °C durante o dia e 21 °C durante a noite. Já em Marseille, configura-se canicule quando se ultrapassa a marca dos 35 °C de dia e 24 °C à noite (fonte: Le Monde).

Europa em estado de alerta

Embora estas temperaturas pareçam corriqueiras para nós, brasileiros, a Europa fica em estado de alerta durante a canicule. Aqui, ela também é conhecida como “onda de calor mortal”. Isto porque, em 2003, entre 35 mil e 50 mil pessoas morreram em toda a Europa em uma onda de calor que durou 15 dias. Apenas na França, foram 15 mil mortes.

Depois disso, os países europeus criaram mecanismos para se preparar para o fenômeno. As medidas vão desde a ampla conscientização da sociedade civil quanto aos riscos, a ampliação da estrutura de atendimento, a criação de pontos para refrescar a população mais vulnerável e até a determinação de ponto facultativo em alguns casos.

Por que tanta gente morre de calor?

Mesmo após a criação do Plano Canicule, a taxa de mortes ainda é alta durante as ondas de calor. Em 2018, foram 480 vítimas somente na França, sendo os idosos, as grávidas e bebês os mais atingidos, já que são mais suscetíveis à desidratação.

Isto ocorre porque, nestes grupos, as células e os neurotransmissores não funcionam em sua total capacidade. Assim, o corpo não emite sinais de que está ficando desidratado. Idosos, por exemplo, não suam tanto nem sentem muita sede.

Pé no mar - praia de seixos - Praia de Saint Estève em Marselha
Umedecer o corpo ao longo do dia ajuda a diminuir a temperatura corporal.

Outro fator mortal das ondas de calor é o superaquecimento do organismo. Os seres humanos são endotérmicos, ou seja, ajustam a temperatura corporal à temperatura ambiente. À medida que o corpo esquenta, nosso metabolismo começa a reservar energia. Porém, após um certo limite de calor, ele passa a gastar mais energia, o que atrapalha o funcionamento dos órgãos – semelhante ao estado febril (fonte).

Canicule: dicas para os turistas

Apesar dos dados assustadores, ainda é possível ter uma boa experiência de viagem durante episódios de canicule. Nada de usar o ar-condicionado como desculpa para ficar no hotel! Basta que você tome alguns cuidados com os quais já estamos acostumados quando o sol está “de rachar” no Brasil. Aqui vão algumas dicas:

Carro prensado de César exposto no MAMAC, em Nice
O MAMAC, em Nice.

1. Fuja do sol entre as 11h e as 16h como o diabo foge da cruz.

Eu sei que pra alguns viajantes isso pode ser meio chato. Eu, por exemplo, sou do time que gosta de uma noite bem dormida, pega o café da manhã faltando 15 minutos pra acabar e sai do hotel depois das 10h. O ímpeto de explorar a cidade andando é grande, mas deixe para fazer isso com o sol mais baixo. Até as fotos vão ficar mais bonitas! Por isso, aproveite esses horários para fazer compras em espaços climatizados, almoçar à sombra ou no ar-condicionado, visitar igrejas, tomar um sorvete ou café gelado… mas o melhor é:

2. Inclua mais museus no seu roteiro.

A recomendação é que você passe pelo menos 3 horas por dia em um ambiente fresco para equilibrar a temperatura corporal. E quer melhor lugar pra deixar os pelinhos arrepiados que um belo museu? Esse calorzão é mais um motivo para investir em entradas para os museus incríveis que a França tem de sobra. A maioria das cidades têm passes que incluem entradas para vários lugares em uma única compra. É numa dessas que conhecemos lugares excelentes e não tão turísticos (como o MAMAC, museu de arte contemporânea de Nice).

3. Compre uma garrafa com pelo menos 1 litro de água e leve com você pra cima e pra baixo.

Durante a canicule, indica-se tomar pelo menos 1,5 litro de água pura para evitar desidratação. Por isso, nada de evitar tomar água para não ter vontade de fazer xixi na rua ou pra não carregar peso. Nas fortes ondas de calor, só uma garrafinha de meio litro não vai ser o suficiente. Coloca uma mochila nas costas e só vai! E uma dica: na França, as jarras de água são sempre gratuitas nos restaurantes. Peça por uma carafe d’eau (pronuncia-se “carraf dô”).

Praia do Prophète em Marselha
Praia do Prophète, em Marselha.

4. Praia? Só se for bem cedo ou no fim da tarde.

Sim, tomar um banho de mar é uma excelente forma de refrescar o corpo. Porém, quando estamos dentro da água ainda estamos tomando sol, o que aumenta o risco de insolação. Portanto, deixe para mergulhar nas águas frescas da Europa quando o sol estiver baixo. E, se possível, alugue um guarda-sol.

5. Sombrinha é vintage!

Mesmo que não haja previsão de chuva, que tal fazer como nossas avós e levar uma sombrinha leve na mala? Além de carregar uma sombra com você, ainda pode render fotos divertidas, aquela vibe vintage parisiense ou provençal… não se preocupe, aqui você não vai pagar mico.

6. Dress code de turista: mode on.

Use e abuse de chapéu, boné e roupas bem leves. E nem preciso falar que o perfuminho típico de filtro solar faz parte do pacote, né? Afinal, você só tem poucas oportunidades de ligar o modo férias e se fantasiar de turista sem medo de ser feliz.

Canicule - Sorvete em Carry-le-Rouet, sul da França

7. Considere investir num hotel com ar-condicionado.

Eu sei que para muitos brasileiros parece automático: hotel sempre tem ar-condicionado, especialmente em cidades quentes como Rio de Janeiro. Mas a verdade é que, aqui na França, este é um detalhe que sempre deve ser verificado. Em Paris, principalmente, onde a rede hoteleira é muito cara, existem muitos hotéis que não incluem a climatização, mesmo com os preços lá em cima. Então, se você for do time dos calorentos, é bom ficar atento a este detalhe na hora de reservar. Em Paris, o Mama Shelter é uma boa e econômica opção.

8. Ao sair da hospedagem, deixe as venezianas de madeira fechadas.

Esta é uma dica amplamente divulgada pelo governo francês, já que todas as janelas aqui possuem as volets (venezianas de madeira). Se fechadas durante o dia, elas mantêm o quarto mais fresco e permitem a troca do ar.

Agora você já sabe o que é a canicule que tanto se fala durante o verão aqui na França. Infelizmente, a tendência é que as ondas de calor sejam cada vez mais frequentes caso não haja uma redução na emissão de carbono. Este estudo estima que, caso novas políticas de redução à poluição atmosférica não sejam tomadas, três quartos da população estará exposta a ondas de calor mortais em 2100.

Lembre-se que, além de se preparar para evitar a desidratação e a insolação, o melhor que podemos fazer é reduzir nosso impacto negativo na natureza para evitar que episódios como esse fiquem cada vez mais frequentes. Vamos pensar mais nisso? Um abraço refrescante e bon courage!

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